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  QUARTA, 10 DE MARÇO DE 2010 303 ESTAMPAS  > > >  
MODA E IMAGEM
da aparência ao sentido


Elizandro Rabelo

Quando falamos sobre roupa, ou melhor, indumentária, evocamos um assunto que, segundo Barthes(2005: 257), a história só começou a ser contada do ponto de vista cientifico a partir da segunda metade do século 19. Essencialmente romântica, até então,  “...era feita para oferecer a artistas, pintores de época ou teatrólogos os elementos figurativos da ‘cor local’ necessários a suas obras”. A pequena bibliografia que será apresentada ao final deste artigo, porém,  nos dá uma incontestável prova da seriedade com que esse assunto é visto nos dias de hoje. Lipovetsky (1989), por exemplo, nos mostra que a estrutura lógica e produtiva deste setor deveria ser – como de fato o foi – copiada por todos os outros setores ligados ao consumo.  Barthes, por sua vez o classifica como “objeto ao mesmo tempo histórico e sociológico por excelência “(2005: 259), cuja forma de abordagem pela ciência deveria ser feita levando-se em consideração  os diversos aspectos que envolvem esse tema.  Garcia e Miranda, por sua vez, estão focados nas questões sócio-culturais que derivam do objeto roupa (2007).  A roupa como linguagem e seu potencial comunicacional oferecem o mote para um delicioso passeio por esse universo.

moda » articulada como linguagem » objeto semiótico que produz sentido

Lipovetsky (1989) define a sociedade de consumo como estruturalmente inserida no processo de moda. Nessa sociedade a produção e o consumo estão reordenados em função de três aspectos: obsolescência, sedução e diversificação.  A lógica organizacional própria do universo da moda/vestuário passou a influenciar toda lógica produtiva da indústria de bens de consumo em geral: renovação precipitada, diversificação e estilização.

RENOVAÇÃO PRECIPITADA  » Deve ser lida em dois níveis: tanto do lado do produto em si, que já é projetado para não durar, quanto do lado do produtor que é obrigado pela economia-moda a lançar novos produtos, em tão curto tempo que não é possível haver grandes modificações. Surge o conceito e hegemonia do gadget: gíria tecnológica para designar um sem-número de aparelhos, eletrônicos geralmente, que possui utilidade duvidosa e ciclo de substituição acelerado. Segundo Lipovetsky (1989),  ele é o que personifica a sociedade de consumo hoje.

DIVERSIFICAÇÃO » Dentro de cada categoria de produtos existe uma ampla oferta de variáveis, baseadas em pequenas modificações, que beiram a personalização. É o imperativo industrial do novo, que despadroniza e desmassifica a oferta de produtos. O consumo de massa baseado no processo industrial de série deu lugar ao processo industrial baseado na idéia de modelos. este, por sua vez, passou a ser dividido em modelos de grande série e modelos de luxo. Essa nova configuração industrial não está baseada no aspecto de qualidade/durabilidade dos produtos. A oposição hoje se dá no universo da forma e do design.

ESTILIZAÇÃO PARA SEDUZIR » O design passa a fazer parte do processo de concepção e produção industrial de massa.

“a feiúra vende mal” (lipovetsky apud loewy, 1989)

As modificações empregadas na estética dos objetos, alinham a produção dos produtos de massa às diretrizes que regiam a moda feminina desde os anos 50: as mudanças incorporadas à apresentação de um produto, tornam prescrito o modelo correlato anterior.  Lipovetsky, porém, chama a atenção para o fato de que em alguns segmentos essas variações formais estão se tornando mais comedidas e discretas de modo a não sustentar a desclassificação dos objetos apenas por causa de alterações formais simples.

Evolução no paradigma do design industrial: Bauhaus, com seu conceito purista de concepção de objetos industriais voltado para a funcionalidade e viabilidade industrial vai dando lugar ao conceito de re-semantização do universo dos objetos através do apelo da sedução. Lipovetisky(1989) usa uma citação de Victor Papanek para ilustrar o importante papel desse apelo  da sedução na concepção dos objetos: “o valor estético é parte inerente da função” . O design, hoje, bebe de diversas fontes de concepção visual, gerando um movimento constante que inter-relaciona os três pilares do processo de produção industrial, re-alimentando todo o ciclo de concepção dos produtos. Dessa forma, a moda deve ser lida muito menos dentro do contexto de alienação e satisfação de pseudonecessidades e mais como espinha dorsal da sociedade de consumo dentro de um contexto de lógica social estratificante, de satisfação pessoal legítima e valorização do novo. O processo de construção da aparência é mediado pela aquisição e uso de produtos

moda » “conjunto atualizável dos modos de visibilidade que os seres humanos assumem em seu vestir com o intuito de gerenciar a aparência ...de forma a produzir sentido e assim interagir com o outro” . (Garcia; Miranda, 2007: 22)

Todos os dias fazemos escolhas dentro dos limites do nosso guarda-roupa.  Esse pequeno universo é tratado por Garcia e Miranda como  um sistema de moda de menores proporções. Esse sistema, composto por unidades mínimas (as roupas) é marcado por relações de exclusão (ou...ou...) que no momento seguinte configuram um processo marcado por relações de adição (e...e...). Após processados e combinados esses elementos do sistema vestimentar irão constituir aquilo que chamamos de aparência .  Mesmo os indivíduos que se dizem mais alheios à moda , estão inseridos dentro do sistema de produção e consumo que é regido por ela .

as pessoas compram produtos para verem refletidas neles a si mesmas , seus valores e seus gostos pesoais. (Garcia; Miranda, 2007)

Tudo o que vestimos, comemo, os caros que dirigimos, ou seja , tudo o que consumimos , constituem uma forma de comunicação, transmitindo a mensagem de como somos ou de como gostaríamos de sermos percebidos. Podemos concluir, assim, que todo consumo é simbólico. Essa capacidade de simbolização através do consumo, ou seja, promover a junção do objeto (significante) à mensagem a ele atribuída (significado), permite ao sujeito existir nesse ambiente simbólico

Historicamente, a roupa ajuda a construir tanto a identidade do usuário com o grupo no qual se insere (numa análise micro ) quanto desse mesmo grupo em relação à humanidade (numa análise macro).  Esse conceito se alinha com “a noção de sujeito sociológico” exposta por Hall (2006: 11). Segundo esse enfoque, a identidade faz a ponte entre o sujeito e o grupo em que ele se insere. Lembrando que essa identidade também está em constante evolução, pois o sujeito está sempre buscando modos de se diferenciar diante do outro, resultando na ruptura e colapso do modelo de identidade única e dando lugar ao sujeito cuja identidade fragmentária o classifica como pós-moderno.

A partir dessa análise, segundo Garcia e Miranda (2007) podemos afirmar que o comportamento das pessoas em geral é influenciado por grupos de referência com os quais interagimos, e que irão influenciar o consumo de três formas: expondo novos comportamentos e estilos de vida; gerando atitudes pessoais direcionadas pelo desejo de “se encaixar”; fazendo pressões que afetam a escolha de produtos e marcas.

Tais grupos de interação podem ser classificados em quatro categorias:

» Primários _ são aqueles com os quais interagimos regularmente e de maneira mais informal. ex: família, amigos, vizinhos e colegas de trabalho.

» Secundários _ são aqueles com os quais mantemos relações mais formais. ex: grupos religiosos, associações profissionais. nesse caso a roupa tende a refletir esse tipo de relação, como no caso dos advogados que vestem ternos durante o expediente.

» De aspiração _ são aqueles aos quais o indivíduo gostaria de pertencer. Nessa situação o sujeito projeta uma imagem que não corresponde à sua realidade. ex: assinantes da revista globo rural, que em sua maioria não possuem propriedades rurais, mas almejam possuir um dia.

» De dissociação - são aqueles com os quais o indivíduo não quer ser identificado.

É válido ressaltar que esses dois últimos grupos citados estão diretamente relacionados, pois objetos de consumo que num determinado momento é rejeitado por um grupo de aspiração – e, claro, identificados com o grupo de dissociação - pode no momento seguinte, dadas as influencias culturais vigentes, se tornar atraente para esse grupo.  De um modo geral, a influência dos grupos de referência sobre o consumo individual, se dá de forma inconsciente no sujeito.

Garcia e Miranda (2007), apresentam o corpo como o veículo de estar no mundo. Sendo assim, a roupa influencia diretamente a percepção e apreensão do universo ao redor.  O ato de vestir-se é influenciado tanto por aspectos naturais (clima) quanto por aspectos culturais (identidade social / sujeito sociológico). Barthes (2005: 264-265), inclusive, vê na relação entre proteção e adorno uma problemática que deve ser discutida e analisada à luz da sociologia para que possa ser plenamente entendida. O mesmo autor ressalta ainda que na passagem do caráter de proteção ao caráter de adorno, há um meio-tom que deve ser visualizado: o conceito de indumentária, cujo significado está menos relacionado ao valor simbólico do que à materialidade da peça que cobre o corpo. Nesse contexto, porém, nosso enfoque será dado ao ato de vestir-se  como dizendo respeito a todas as formas de ampliação do corpo, engendradas por roupas, acessórios, tatuagens e outros adornos.

vestir o corpo é um dos meios pelos quais o ser humano produz significação. (Garcia; Miranda, 2007)

Como exemplo extremo da afirmativa acima, podemos citar, ainda segundo os mesmos autores, as cortesãs da Grécia antiga que escreviam em relevo na sola de suas sandálias a palavra “siga-me”, para indicar onde podiam ser encontradas pelos interessados. Classificamos como extremo essa peculiaridade histórica, pois é claro diante de tudo que já foi dito até aqui, que “o modo de vestir, como símbolo social modifica-se em função das alterações da estrutura e do estado geral da sociedade; mas compreender as escolhas pessoais diante do guarda-roupa não é tarefa fácil” (Garcia; Miranda, 2007: 27).

O vestir-se à moda é um ato que baseia-se na aquisição de um saber específico que possibilitará ao indivíduo criar em si mesmo simulacros de identidade por meio da aparência. O consumo em moda é direcionado pela imagem que o indivíduo tem de si mesmo. Consumimos aquilo que é capaz de expressar o que chamamos de autoconceito. Para entendermos o significado de autoconceito é preciso analisá-lo sob três aspectos:

» Autoconceito real _ é como o indivíduo percebe a si próprio. no ato de vestir-se, o indivíduo direciona sua escolha para os itens que melhor reforçam a idéia que ele tem de si mesmo;

» Autoconceito ideal _ é como o indivíduo gostaria de ser percebido. na construção desse “eu ideal” é considerado pelo usuário os modelos de realização e aparência a que ele tem acesso.

» Autoconceito social _ é como o indivíduo apresenta seu eu para os outros. é a imagem que o sujeito faz de si diante da percepção dos outros. é a projeção que ele faz de como os outros o vêem.

O consumo em moda, do ponto de vista individual, é determinado pela conjunção desses três tipos de autoconceito. Nesse contexto o s produtos que consumimos funcionam como instrumentos que transportam o “eu real” para o “eu ideal”.  A partir desses conceitos é possível traçar três perfis de consumidor de moda em função da auto-imagem que o indivíduo faz de si:

» Sujeitos com alto automonitoramento  _ são indivíduos que acreditam que a roupa podeajudá-losa comunicar a mais apropriada auto-imagem para cada situação;

» sujeitos com baixo automonitoramento _são indivíduos que não dão atenção ao uso de roupas para comunicar uma determinada aparência.

» sujeitos cujas escolhas de consumo em moda são definidas diretamente por outros _ aqui podemos classificar os indivíduos que ao lançarem mão dos serviços de um personal stylist, estão aceitando tanto a imagem que os outros fazem dele como a estão projetando para o grupo no qual estão inseridos.

Vejamos alguns exemplos que nos ajudam a entender a construção e organização do sentido de uma vestimenta, do ponto de vista semiótico:

_médicos utilizam branco e verde claro para denotar higiene;

_atletas utilizam roupas com recortes e materiais que ajudam a melhorar sua performance;

_mesmo roupas que não são desenvolvidas com um sentido de uniforme, podem tomar esse sentido conforme o contexto em que são lidas. ex: um executivo que veste um impecácel terno está tão “uniformizado” para desempenhar sua função quanto um operário em seu macacão.

_a despeito da globalização e de toda a força da mídia de moda, em algumas culturas o vestir-se é determindado por preceitos de fé e religiosidade. nesse contexto a roupa passa a ter uma função e significado místicos. o sentido da roupa ultrapassa o aspecto material. Ainda falando do aspecto religioso, a mensagem que esse vestir-se transmite pode ser bastande complexa para alguém de fora do grupo, pois fazem uso de elementos simbólicos específicos.

_as mulheres mulçumanas pertencentes à elite, e que, como as demais, precisam cobrir inteiramente o corpo ao sairem na rua, adotam o uso de lenços de grife para remeter à outra construção de sentido. nesse caso, para que suas escolhas possam promover o devido reconhecimento social  necessário que seu interlocutor possua acesso a esses diferentes universos (Garcia; Castilho: 2007).

Independentemente do aspecto funcional, as escolhas que fazemos no vestir possui um forte componente simbólico, somado a aspectos estéticos e estratificantes. Tais componentes simbólicos provêem aos produtos que consumimos uma identidade que será avaliada pelo indivíduo como correspondente ou não com sua própria identidade. 

Até mesmo a possível indiferença do consumidor a esses aspectos aqui mencionados, não o eximem da construção de significado próprio do vestir-se.

Para finalizarmos, como exemplo - novamente extremo – da assertiva acima, podemos lançar um rápido olhar sobre os objetos, classificados por Lipovetisky (2008) como sendo pertencentes ao universo de luxo, devido a seu claro valor simbólico.

Produtos de uso corrente destacam-se pelo benefício funcional do objeto. Produtos de luxo lidam essencialmente com a dimensão simbólica dos objetos. A imagem de uma marca está relacionada às associações estocadas na memória do consumidor. Justificam seu valor por critérios de identidade e legitimidade.

LEGITIMIDADE » No caso das marcas de luxo está fundamentada na tradição artesanal (saber fazer / qualidade de execução) e no talento criativo (constantemente renovado e que sobrevive mesmo depois da saída do fundador). Além desses dois pilares fundamentais, é imprescindível que a marca possua um trabalho de gestão de imagem e de comunicação desses valores junto ao público de interesse.

IDENTIDADE » Característica que confere à marca a capacidade de manter-se a mesma em sua essência, fiel a si própria, independente das mudanças que ocorram nela própria ou ao seu redor. Em termos práticos, a identidade no mundo das marcas, é o elemento que faz a ponte entre variantes que configuram a o processo de desenvolvimento de produtos de uma marca.

Isso não pressupõe, porém, que exista apenas uma única estética do luxo. É preciso ter sempre em mente, como nos indica Barthes (2005), que o assunto que tratamos aqui possa ser analisado sob a luz de não de apenas uma área do conhecimento, mas deve ser estudado de forma mais ampla e interdisciplinar, para que possa ser melhor entendido. Atente-se por exemplo para os aspectos produtivos de tais produtos e teríamos uma gama de refinamentos e sutilezas que por si só já nos dariam base para um longo estudo. A sinestesia do objeto de luxo o classificam nessa categoria e, por conseguinte, a marca a qual pertence.

BIBLIOGRAFIA

BARTHES, R. INÉDITOS, VOL. 3: IMAGEM E MODA. TRAD. IVONE CASTILHO BENEDETTI. SÃO PAULO: MARTINS FONTS, 2005.

GARCIA, C.; MIRANDA, A.P. MODA É COMUNICAÇÃO: EXPERIÊNCIAS, MEMORIAS, VÍNCULOS. SÃO PAULO: ANHEMBI MORUMBI, 2007.

HALL, S. A IDENTIDADE CULTURAL NA PÓS-MODERNIDADE. TRAD. TOMAZ TADEU DA SILVA, GUARACIRA LOPES LOURO. RIO DE JANEIRO: DP&A, 2006.

LIPOVETSKY, G.; ROUX, E. O LUXO ETERNO. SÃO PAULO: COMPANHIA DAS LETRAS, 2008.

LIPOVETSKY, G. O IMPÉRIO DO EFEMERO. SÃO PAULO: COMPANHIA DAS LETRAS, 2007.

1. ALGUNS APUDS FORAM MANTIDOS NA FORMATAÇÃO FINAL DESTE ARTIGO POR SE TRATAREM DE INFORMAÇÕES OU CITAÇÕES RELEVANTES PARA A DISCUSSÃO E POR TEREM SIDO VALIDADAS POR AUTORES RECONHECIDOS PELOS PARES COMO REFERENCIA SOBRE O ESTUDO DO OBJETO PROPOSTO.

2. NUMA CONCEPÇÃO MAIS AMPLA , SEGUNDO KOTLER (2006) , QUALQUER COISA QUE POSA SER OFERECIDA AO MERCADO PARA AQUISIÇÃO , ATENÇÃO , UTILIZAÇÃO OU CONSUMO E QUE SATISFAZ UM DESEJO OU NECESIDADE .

3. QUANDO LIDA DO PONTO DE VISTA DO SUJEITO, TRAZ EM SI CONCEITO DE PARECER. QUANDO LIDA DOPONTO DE VISTA DO OUTRO, TRAZ EM SI O CONCEITO DE APARECER.(GARCIA; MIRANDA)

4. CONCEITO CHAMADO POR SOLOMON DE INTERACIONIOSMO SIMBÓLICO (GARCIA; MIRANDA APUD. SOLOMON). REFERE-SE À INTERAÇÃO ENTRE OS SERES HUMANOS, OS QUAIS DEFINEM OU INTERPRETAM CADA AÇÃO DOS OUTOS, EM VEZ DE MERAMENTE REAGIR A ELAS.

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